Faz exatamente cinco anos que terminamos e você nem sequer veio me visitar dentro da minha própria cabeça. Provavelmente é por não fazer diferença? Sim. Conforme a maturidade vai chegando, percebemos que nem tudo foi um grande evento que nos gerou um trauma que posteriormente vamos compartilhar deitadas na cadeira do psicólogo por anos. Esse é o seu lugar na minha vida: um lugar de irrelevância, porque as coisas realmente não foram tão intensas assim como eu julguei no final de novembro de dois mil e vinte um. Trata-se de algo que aprendi a aceitar visto que, no início, achei que você era um monstro que tinha me usado. O tempo foi passando e percebi que eu não sentia nem dez por cento do que imagina. Tudo foi muito novo para mim, como a vontade de fazer dar certo, o sentimento de perda, o ânimo ao ter alguém do meu lado e a decepção de entender que nem todo mundo é para a gente. No nosso caso, não éramos compatíveis, nossos interesses em comum eram praticamente inexistentes e também não tínhamos o desejo de ficar juntos. Foi apenas uma conveniência e nem sei se te falar se teve dedo do famoso destino (eu particurlamente acho que não teve).
As opiniões foram e continuam sendo dividadas quando seu nome raramente aparece na rodinha. Alguns amigos meus ainda acham que você foi um tóxico, um infantil e um grande jogador. Outros amigos insistem em dizer que você apenas era desagradável e um carente que não tinha para onde correr diante da pandemia. Grande parte dos meus familiares ainda comemora que você não faz parte das datas especiais espalhadas pelo ano. Eu não necessariamente sei te dizer se tenho uma opinião formada, todavia, ter uma opinião formada ou não sobre você não é uma coisa que me pego pensando com frequência. Você até que teve um lugar especial na minha vida e reconheço isso. Existiram momentos bons assim como existiram momentos ruins. Você me mostrou que o mundo ia muito além daquilo que eu imaginava e também me ensinou o tipo de tratamento que espero nunca mais ter na minha vida. Inclusive, é sobre um deles que eu vim falar aqui hoje.
Às vezes estou tão no automático que não percebo que algumas coisas aconteceram. Elas passaram como se não fosse nada sendo que, no fundo, alguém deveria ter levantado a mão e as problematizado. Nem sempre tudo gera um incômodo, porque aprendemos a aceitar aquilo que não deveria ser visto como "normal" ou "comum". O grande problema é quando nos deparamos com alguma coisa que misteriosamente virou um assunto em uma roda de amigos, em uma conversa aleatória com um colega ou enquanto você desabafa sobre algo na terapia. Achamos que está tudo bem falar sobre quando um sentimento de inquietude toma conta e permanecer sentadas parece um castigo invés de um relaxamento para o corpo que trabalhou mais de quarenta e quatro horas ao longo da semana. De fato, eu daria tudo para compreender o porquê meu cerébro insiste em resgatar memórias que não solicitei e que não são bem-vindas. Em diversas situações, eu me pego sofrendo por um look mal escolhido de dois mil e treze sendo que talvez era moda naquele ano.
Enfim, o que quero dizer é que é muito difícil eu citar seu nome. Não é algo que vem do nada. Não é algo que eu sequer me recordo até que de repente me questionam o porquê não passei o meu Kindle para frente, uma vez que eu nunca o usei. Ele foi uma aquisição que fiz durante a pandemia. Escutei uma colega dizer sobre as vantagens e me vi navegando no site da Amazon atrás de um. Era muito caro para uma jovem adulta que nem sequer fazia estágio. Meus pais não me dariam um até que guardei esse dinheiro por meses. Senti que aquela era a solução para o meu quarto cheio de livres. Por um instante, achei que iria me adaptar com a tela invés das folhas físicas. Comprei. Ele chegou e meu entretenimento durou três dias. Coloquei ele na gaveta e assim ele foi ficando: jogado pelos cantos do meu quarto até que eu decidi trazer ele para São Paulo com a expectativa de voltar a ler com certa recorrência. Afinal, os livros físicos não cabem no armário minúsculo que abriga as minhas roupas. Grande parte das pessoas que me conhece sabe que vivo carregando um livro por aí, só que isso se tornou uma outra realidade desde que eu abracei meu mais novo desafio.
Por mais que eu gostaria, esse não é o foco desse texto. O que eu vim compartilhar aqui foi sobre um dos piores dias que eu vivi. Ou seja, o dia que você me deu uma pílula do dia seguinte que coincidentemente está guardada até hoje na case protetora do meu Kindle. Esse dia foi apagado do meu cerébro e nem sei dizer se foi uma decisão consciente. Foram muitas emoções e talvez até um drama. Suspeitei que algo diferente estava acontecendo no meu corpo, conversei com você sobre as minhas inseguranças e você tinha me dito que passaria na farmácia. Tudo foi muito rápido até você apareceu na porta da minha casa, me pediu para entrar no carro e tirou uma caixinha do bolso. Não sei se por ser muito ingênua ou por não querer acreditar, não a peguei. Aquela caixinha, antes mesmo de ser aberta, sinalizava alguma coisa por mais que eu nunca tivesse visto uma na minha frente. Algo mudaria em mim. Em você. Na nossa relação. Antes mesmo que eu pudesse processar qualquer coisa, você me disse para tomar com um copo de água. Perguntei o porquê e você me falou para tomar visto que não estava preparado para ser pai. Aquilo me chocou, me pegou totalmente desprotegida e fez todo o ar disponível no mundo não ser suficiente para mim. Não tínhamos certeza de nada, o corpo não era seu e, mesmo assim, você insistiu para que eu enfiasse a pílula goela abaixo. Será mesmo que isso era uma decisão sua? Por que não conversamos sobre? Nós realmente não tínhamos maturidade para lidar com aquilo? A decisão era necessariamente unilateral ou você apenas não soube lidar com o medo que carregava dentro do peito?
Essas foram perguntas que não gastei meu tempo alimentando. Peguei a pílula e saí do carro. Você não veio atrás. Eu a coloquei no bolso e te confirmei que a tinha tomado após as suas inúmeras mensagens. Em alguns dias, me perguntei se não a tinha tomado mesmo visto que ela tinha sumido. Eu não lembrava do que tinha acontecido com tantos detalhes. Nunca falei sobre isso com ninguém até que encostei na tal case e notei que tinha uma repulsa por ela apenas por senti-la em contato com os meus dedos. É dois mil e vinte seis e isso incomoda ainda continua. Hoje eu abri delicadamente a case, encontrei meu Kindle sem bateria pela sétima vez seguida e quando tirei ele para carregar, vi a bendita pílula que jurei ter tomado ali parada na mesma embalagem transparente de sempre. Talvez isso tenha tido influência para eu nunca ter dado uma chance para o dispositivo assim como você não me deu chance de resposta naquele dia. Você me perguntou tantas vezes se eu não estava grávida que comecei a alimentar aquela paranoia dentro de mim, engoli litros e litros de chá de canela com alguma esperança durante aquela semana, e dei gritos quando viu um borrão vermelho com marrom entre as minhas pernas. Achei que o que eu sentia era alívio sendo expressado por meio de lágrimas, porém hoje percebo que era apenas meu corpo expressando a mais intensa tristeza que eu poderia sentir.
Quando tudo começou em fevereiro de dois mil e vinte e um, eu carrega comigo a certeza do porquê escolhi você. Você demonstrava um sinal mínimo de humanidade nas nossas conversas e acreditei que você seria a pessoa que estaria ao meu lado “para sempre” (enquanto durasse). Se você realmente se recorda de algum fragmento do ano que vivemos juntos, você vai lembrar que as nossas primeiras conversas foram um completo desastre. Parei de responder. Você insistiu. Falei várias vezes que eu não queria namorar. Você insistiu mais um pouco. Um pedido de namoro foi feito. Um “sim” sem graça aconteceu. Nós éramos um casal. Inúmeras trilhas foram feitas contra a minha vontade enquanto você se recusava a fazer uma coisa sequer que eu gostava. Eu cedia daqui, dali e de qualquer canto que você possa imaginar. Você se mantinha inflexível. Meu encantamento foi sumindo. Meu brilho foi morrendo. Meu sorrisos viraram lágrimas. Sua paciência viraram gritos no telefone e socos na parede em dois dias que você falou que não estava em si. Eu perdoei. Você disse que não faria de novo. Insisti para falarmos sobre os desconfortos compartilhados. Você disse que era besteira. Eu insisti. Você não quis me ouvir. Eu tentei me aproximar. Você me empurrou do penhasco na primeira oportunidade que teve.
Isso ainda é uma ironia quando paro para pensar. Foi você que veio atrás para se tornar presente assim como foi você que manteve a distância diante de um momento de crise. Ao mesmo tempo que você costuamava dizer que eu era o amor da sua vida, você também repetiu isso ao se envolver amorosamente com a sua melhor amiga. Ela passou a ser essa pessoa ou já era desde quando vocês se conheceram? Eu te perguntei sobre isso duas vezes e abri o espaço, porque jamais seria a pedra na sua trilha para a felicidade. Você negou. Contudo, as dúvidas existiam e eu decidi não alimentá-las. Tem coisas que a gente não controla e essa era uma das coisas que estavam fora do meu alcance. Por isso, para que não tivêssemos mais uma dor de cabeça, segui em frente sendo que a verdade é que fiquei anos sem compartilhar isso com ninguém por achar que esses sentimentos não mereciam um lugar. Os sinais não eram tão claros assim, só que eles aconteciam de vez em quando como aconteceu hoje quando eu vi aquela pílula. Ainda suspiro muito ao me deparar com tanta situações nas quais cedi. Eu sempre me preocupei com seu bem estar enquanto você se preocupava exclusivamente com o que você sentia. Você não queria as conversas difíceis, assim como você não queria aceitar as falas problemáticas de vários dos seus amigos que deram em cima de mim pouco tempo depois do nosso término.
Não duvido que o tempo te fez a amadurecer assim como fez comigo. A maturidade é uma coisa inevitável que vem de acordo com as experiências que a gente coleciona. Essa é a razão pela qual não gosto de cobrar que as pessoas façam as coisas no meu tempo ou da minha forma. Cada pessoa tem seu tempo e vive o seu momento conforme pode. Não adianta cobrarmos de alguém algo que aquela pessoa nunca experimentou ou viveu. A vida vai nos ensinando e nos mostrando aos poucos e talvez esse seja meu principal problema também: exercer tanto a empatia com o outro que acaba esquecendo que também sou uma pessoa que merece cuidado, afeto e respeito. Se aprendemos a se respeitar o nosso tempo e isso é visto como amor próprio, respeitar o tempo do outro então se torna um ato de amor. Foi isso que eu fiz por você, porém infelizmente acabei não fazendo por mim e hoje me pego pensando o porquê não coloquei um limite ou até mesmo um fim em uma relação que nunca deveria ter começado.
Portanto, digo que escrevi esse texto para expressar o não que eu deveria ter dito e o limite que eu deveria ter imposto. Aquela decisão nunca foi sua e ela não foi a única que você tomou de forma unilateral, me silenciando de novo, de novo e de novo. Pensei que eu estava ficando louca ao ponto de ser tóxica. Chorei escondido em vários momentos para não te sinalizar a dor que eu sentia. Noto, mesmo que de forma tardia, que invés de abaixar a cabeça e apenas dizer que estava tudo bem, eu deveria ter gritado e me afastado. Nós éramos muito jovens e entendo isso, mas nada justifica aquilo que tive que passar e engolir em seco por anos. É a primeira vez que paro para pensar sobre e provavelmente vai ser a última, uma vez que tem coisa que nós matamos e entederramos ao invés de ressuscitar.
Não é algo que me incomoda (ou talvez até seja). Ainda não sei definir. Por mais que eu suspire sem parar ao digitar, aceitei que não posso voltar no tempo. São tantos "e se" que me pego enlouquecendo aos poucos enquanto faço uma limpeza que supostamente deveria ser tranquila e relaxante. Se essa situação não tivesse acontecido, provavelmente eu teria lido vários livros e seria uma pessoa completamente diferente agora. Ou então eu nem pegaria no meu Kindle. Ou então eu o teria passado para frente nas várias oportunidades que tive. Isso é algo que não vou saber. Existem tantas coisas por trás que estão sem uma resposta e também existe uma grande chance de elas nunca terem uma.
Amo quem eu sou e entendo que ainda estou no processo de entender que as pessoas não podem me tratar como elas bem entendem. Dói, machuca, sangra. São batalhas diárias. Às vezes escolhemos comprá-las, às vezes escolhemos abandoná-las. No entanto, independentemente de qualquer coisa que eu tenha escrito, uma parte de amar a mim mesma também significa aceitar as minhas dores, definir os meus limites e me posicionar quando o que está em jogo não afeta apenas o outro. Não é só sobre o outro, também é sobre mim.
(vai demorar, só que ainda vou aprender a lidar melhor com isso tudo... ou não).
EEGR.


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