Parece forte, porém é só a realidade se mostrando. Às vezes você se pega pensando o que deu errado para você não ter mais aquela pessoa do seu lado, o que você fez para ser tratada com tanto ódio, o que você não fez para lidar com tanta frieza e tanta indiferença, o que você é para merecer determinado comportamento, o que você não é para não ser convidada para certas mesas. Quando você percebe, sua cabeça está cogitando as diversas possibilidades e lidando com a subjetividade do outro. Naturalmente somos seres socáveis e a construção de relacionamentos é algo muito incentivado desde a infância, porque a gente sabe que não consegue sobreviver sem as pessoas. Ao mesmo tempo que nós somos cobradas para sermos protagonistas das nossas vidas, a gente também entende que a vida fica mais leve quando a gente compartilha com alguém e isso não necessariamente se limita ao aspecto amoroso.
As minhas reflexões sobre relacionamentos começaram no dia seguinte que eu recebi a sua mensagem. De repente eu não conseguia dormir, as refeições não tinham mais a mesma importância, os meus cuidados comigo mesma eram banalizados um a um, a minha vaidade não era mesmo. Parecia o fim de um relacionamento e, de fato, era. Esse texto não necessariamente é para você, mas com certeza é sobre você. Seria muito falso da minha parte dizer que eu ainda não me importo apesar de ter motivos o suficiente para não voltar em determinados momentos do tempo. Não é sobre obsessão, sobre paranoia ou sobre não conseguir seguir em frente, porque foi isso que eu fiz nos últimos meses. É sobre reconhecer a dor que foi causada e tentar lidar com as consequências disso, mesmo sabendo que eu decidi confiar em você e acreditar no seu lado luz. Você não espera que a pessoa que te liga e desabafa em vários momentos do dia vai ser a primeira que enfia uma faca nas suas costas. Você pode até dizer que reconhece a sua culpa, só que será que você entende o impacto que você causou na vida de alguém apenas por viver uma fase ruim?
Não estou dizendo que a gente não erra até porque nós somos seres humanos e o erro é inerente à nossa existência. O que estou dizendo é que às vezes poderíamos ser mais gentis do que gostaríamos, pois nem sempre o outro merece receber uma dose do ódio que a gente carrega dentro de nós mesmas. É difícil lidar com momentos ruins, com perdas inesperadas, com frustrações constantes e com a sensação de nunca ser suficiente. Por mais que a idade chegue, a gente não vai conseguir todas as respostas e provavelmente vai passar uma boa parte da vida tentando ser aceitas em locais que não fazem sentido com quem somos. O mundo já é um lugar muito perigoso e muitas vezes o mínimo que a gente espera do outro é respeito pelas dores que compartilhamos com ele. Nem sempre a gente encontra acolhimento, na maioria das vezes a gente encontra alguém para continuar nos mantendo no fundo do poço.
No momento que li tudo que você tinha para dizer, fiquei incrédula. Não imaginava que uma pessoa que tinha compartilhado um ano inteiro e tão difícil comigo seria o ser humano mais ingrato que tive o desprazer de conhecer. Fiquei assustada, chateada e digo que até mesmo com raiva de ser um saco de pancadas de uma pessoa que eu tentei abraçar tanto. Eu não tinha motivos para te escutar quando você me procurou pela primeira vez, eu não tinha a intenção de me aproximar de você por mais que você estivesse passando por um momento difícil, eu não tinha obrigação de construir uma amizade tão genuína e de cuidar de você. Mesmo que eu não tivesse motivos para nada, escolhi estar do seu lado e ser uma amiga que você precisava. Você disse tantas vezes que tinha outras amizades e quando você se encontrava em desespero, eu não via nenhuma delas ao seu redor. É claro que a gente tem diferentes perfis de amizades para a vida, mas tem gente que segura a gente quando a gente pensa em pular do penhasco e eu não vi ninguém ao seu redor que fazia isso.
O local que você se encontrava era muito delicado. As suas dores e as suas vulnerabilidade precisavam ser acolhidas. Pensei várias vezes se eu estava disposta a passar por isso e de maneira inconsciente me peguei fazendo por você aquilo que eu gostaria que tivessem feito por mim quando precisei. Qualquer movimento brusco poderia te estimular a pular em um buraco que talvez não tivesse volta ou então demorasse muito tempo para ser escalado. Era nítido que você queria ser feliz e se livrar de memórias que se tornaram um tormento. Você merece a felicidade, independentemente do que tem acontecido entre nós duas, e também a tranquilidade de viver um amor tranquilo. Os seus choros não eram apenas por conta do breve passado que você tinha vivido, todavia também por conta da vontade de ser amada e vista por alguém que merecia o seu amor. Como sua antiga amiga, ver você naquela situação me colocava em desespero que aos poucos foi me consumindo e me fazendo ter a percepção de que qualquer responsabilidade era minha.
Não estou dizendo que sou especial ou que qualquer outra amizade não faria isso com você, no entanto, onde estavam essas pessoas? Por que você concentrava tanto as suas dores em mim? Qual foi a motivação que você teve para achar que eu queria carregar esse fardo junto com você? Quais foram os limites que não estavam claros? Essas são perguntas que você não tem a obrigação de responder sozinha até porque a culpa aqui é compartilhada. Suas dores eram íntimas, reais e injustas. Eu não era a causa delas e quando notei, me coloquei em um papel de tentar te salvar de si mesma, de apagar as coisas que você passou e de mudar aquilo que as pessoas geraram em você. Um pânico tomava conta do meu corpo ao ponto de eu me cobrar para ser sempre melhor. Acredite se quiser: eu queria ser uma amiga melhor, só que eu também vivia as minhas dores internas e lidava com questões complexas que foram deixadas de lado apenas para viver a sua dor.
No fundo, ainda me pergunto: mas por que senti isso? Por que me coloquei nesse lugar? O que eu ganharia com isso? Infelizmente essa é uma mania que tenho desde a infância, onde lidar com a dor e a exclusão são coisas que mexem comigo. Em uma sessão com a psicóloga, desabafei sobre você e sobre como alguns dos meus comportamentos poderiam ser explicados a partir de diferentes perspectivas. Depois de muitas trocas, ela me falou que certas experiências me fizeram prezar muito pela harmonia dos relacionamentos e pela ordem, uma vez que o caos tende a destruir aquilo que considero belo. Entretanto, ela não poderia deixar de pontuar que não é todo mundo que tem essa natureza e que existem pessoas que encontram o belo no meio do caos. Talvez você fosse esse tipo de pessoa, talvez não fosse. A questão aqui não é sobre você, é sobre mim. É sobre colocar para fora sentimentos que deveriam ter sido expressos em diferentes ocasiões ao longo do tempo.
É por isso que retomo ao título deste texto e digo com paz no coração que algumas amizades não funcionam por mais que a gente tente ser a nossa melhor versão enquanto estamos com elas. Você me procurou e disse que nós mulheres temos uma tendência a desculpar homens que nos tratam com tanta indiferença enquanto perdemos grandes amigas que estiveram ao nosso lado em momentos difíceis. De certa forma, isso é verdade. Romantizamos relacionamentos amorosos mais do que deveríamos simplesmente porque, na maioria das vezes, queremos que essa área da nossa vida “dê certo”. Entretanto, se é que você quer minha opinião sincera, entendo e sinto como o gênero pode afetar em diversas aspectos, no entanto, não sinto que esse é um deles. Não sinto que isso foi por sermos mulheres. Sinto que isso foi simplesmente porque não funcionamos bem juntas e está tudo bem (após tantas sessões na psicóloga e tantos meses). Você foi um exemplo claro de que colocar as suas necessidades acima das minhas foi um erro terrível. Não estou dizendo que eu não faria isso novamente se voltássemos no tempo, só que a maturidade vai fazendo a gente perceber que nem todo mundo é tão bonzinho como eu penso.
Ao longo da vida, me esforcei muito para enxergar o melhor das pessoas e acolher tanto o lado luz quanto o lado sombra de quem passasse pelo meu caminho. Quebrei muito a cara, sofri e me senti sozinha em muitas vezes, chorei e me perguntei o que me fazia ser uma pessoa tão “chata” ao ponto de não ter ninguém por perto. Mas, também descobri que acolher o outro não é uma obrigação que tenho, principalmente considerando que são poucas as pessoas que fazem isso pela gente. Não é sobre o comportamento certo ou errado, é sobre como a gente crescer, perceber o mundo e consequentemente refletir isso no mundo das pessoas ao nosso redor. Não é todo mundo que serve para acolher assim como não é todo mundo que serve para ser acolhido. Não é todo mundo que vai ter uma conversa super profunda com você em um sábado aleatório assim como não é todo mundo que vai ter uma pausa de cinco minutos para tomar um café rápido e apenas falar sobre um tema que interessam a ambos. Não é todo mundo que vai te incluir na lista de amigos do aniversário assim como não é todo mundo que vai esquecer que você existe.
Eu poderia escrever esse texto por horas e tentar transcrever os vinte e seis anos da minha vida. Foram tantas chegadas e tantas partidas que o meu coração se aquece ao mesmo tempo que ele se aperta. Foram tantas palavras gentis e cruéis que entraram e saíram pelos meus ouvidos. Foram tantas lágrimas e tantos sorrisos que formaram quem sou eu e as memórias que guardei ao longo do tempo. A única certeza que eu carrego é que eu realmente tentei ser a minha melhor versão em cada momento que compartilhei com alguém. Se ela não foi suficiente, até eu tenho os meus próprios limites e reconheço que alguns relacionamentos simplesmente não são para ser nossos. Não me arrependo de nada, mesmo que eu saiba que faria muitas coisas diferentes. Nem sempre a gente consegue mudar as coisas e recomeçar algo, no entanto, a gente pode se perdoar e se permitir começar um novo dia assim que abrimos os olhos todas as manhãs.
Hoje sinto serenidade quando falo de você e vejo todas as consequências que tive após dezembro de dois mil e vinte cinco. A vida foi me levando e vai continuar fazendo isso. Às vezes imagino como as coisas seriam se você estivesse aqui, às vezes agradeço que você não está. Algumas coisas se tornaram mais leves diante da nossa ruptura, algumas coisas se tornaram mais árduas. Essa é a realidade da vida: existem extremos para tudo e a gente vai encontrando o equilíbrio no meio disso tudo. Você não foi a primeira e nem vai ser a última. Agradeço pelos momentos que compartilhamos e sou grata pelo que vivemos dentro do possível, porém essa vai ser a última vez que falo sobre você. Se o Chat GPT continue te dizendo que não é a hora de voltarmos a ser amigas, te dou a certeza que não seremos mais. O nosso ciclo foi encerrado e a gente tem que aceitar que algumas amizades simplesmente não funcionam. Não tem porquê. A gente só tem que aceitar.
Com carinho,
EEGR.


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